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27 de agosto de 2013

Alice, cronópios, Amélie: post de aniversário

Eu gosto do encontro de Alice com a lagarta do cogumelo:
Alice looked all round her at the flowers and the blades of grass, but could not see anything that looked like the right thing to eat under the circumstances. There was a large mushroom near her, about the same height as herself, and when she had looked under it, and on both sides of it, and behind it, it occurred to her to look and see what was on the top of it. 
Acho particularmente genial como Lewis Carroll estende essa última frase quando poderia ter escrito apenas she looked all around it. Sigamos:
She stretched herself up on tiptoe, and peeped over the edge of the mushroom, and her eyes immediately met those of a large blue caterpillar, which was sitting with its arms folded, quietly smoking a long hookah, and taking not the least notice of her or of anything else. 
For some time they looked at each other in silence: at last the caterpillar took the hookah out of its mouth, and languidly addressed her. 
–Who are you?, said the caterpillar. 
This was not an encouraging opening for a conversation: Alice replied rather shyly, "I--I hardly know, sir, just at present--at least I know who I was when I got up this morning, but I think I must have been changed several times since that." 
–What do you mean by that?, said the caterpillar, explain yourself!
–I ca'n't explain myself, I'm afraid, sir, said Alice, because I'm not myself, you see.
–I don't see, said the caterpillar.
–I'm afraid I ca'n't put it more clearly, Alice replied very politely, for I ca'n't understand it myself, and really to be so many different sizes in one day is very confusing.
...e por aí vai. Em algum de seus textos, Cortázar retoma essa ideia de "ser várias pessoas em um mesmo dia". Não posso senão concordar, até porque tenho muito claro que eu não sou o mesmo que foi ao supermercado hoje de manhã, mas o que eu acho curioso é que o mesmo Cortázar instaurou um problemão quando criou os cronopios, as esperanzas e os famas. Quer dizer, não é Cortázar quem instaura este problema, mas sim o ser humano, com sua insuportável vaidade. Enfim. Acontece que ontem eu esbarrei n'O escorpião encalacrado do Arrigucci Jr. e reli o contículo chamado Un cronopio pequeñito, que ele cita para mostrar o tipo de presente de grego que Cortázar costuma deixar para seus leitores:
Un cronopio pequeñito buscaba la llave de la puerta de la calle en la mesa de luz, la mesa de luz en el dormitorio, el dormitorio en la casa, la casa en la calle. Aquí se detenía el cronopio, pues para salir a la calle precisaba la llave de la puerta.
Dizem que Cortázar é um autor boicotado no meio acadêmico argentino. Qué sé yo, nunca estudei lá, estudei foi no Brasil, e como lá se vai uma década lendo Cortázar a fundo, já me cansei de ver que as pretensões de seriedade de nosso fuleco meio acadêmico vão por água abaixo quando lemos as Historias de cronopios y de famas. Ou apenas Historias de cronopios, porque os famas e as esperanzas quase nunca são mencionados em nossas aulas. Então estariam certos os argentinos? Fato: todo mundo se identifica com os cronópios, todo mundo quer ser cronópio, todo mundo acha que pode ser cronópio. Do mesmo modo que todo mundo se identifica e acha que pode ser a Amélie Poulain. Cara, eu já enfiei a mão num pote de feijão. A cena clássica da Amélie enfiando a mão no saco de lentilhas não veio acompanhada de sua continuação: a mão cheia daquela poeirinha chata. Se Jeunet tivesse mostrado Amélie limpando a poeira da mão, eu teria me lembrado.

Dizem que virginianos tendem a ser organizados. Em nossas conversas de virginianos nascidos na mesma semana, Letícia e eu entendemos que o ser virginiano se caracteriza mais por um desejo de organização do que por uma organização efetiva: é só ver minha mesa de trabalho ou meus planos de aula. Mas o pior está em minhas gavetas, na gaveta de meias da Letícia, em nossa gaveta de utensílios de cozinha. Se tem algo que virginiano adora, é um monte de gavetas para sair enfiando seus objetos.

20 de maio de 2013

Le questionnaire de Proust, version 2013

Ma vertu préférée : à vrai dire, les choses que j’ai à faire ne sont pas de vertus.
La qualité que je préfère chez un homme : la souplesse.
La qualité que je préfère chez une femme : la souplesse.
Ce que j’apprécie le plus chez mes amis : ils ne valent pas un clou.
Mon principal défaut : je me déconcentre vachement trop.
Mon occupation préférée : frotter les pieds de Lætitia.
Mon rêve de bonheur : frotter les pieds de Lætitia au gré de mes désirs.
Quel serait mon plus grand malheur ? Si Lætitia m’empêchait de lui frotter les pieds.
Ce que je voudrais être : celui qui ne se déconcentre pas trop.
Le pays où je désirerais vivre : ici ça va.
La couleur que je préfère : vert.
La fleur que j’aime : je ne sais pas, mais j’aime le romarin.
L’oiseau que je préfère : je ne sais pas, mais j’aime les raies.
Mes auteurs favoris en prose : Julio Cor, Albert Ca.
Mes poètes préférés : Charles Bau, Carlos Dru.
Mes héros dans la fiction : Macunaíma c'est déjà lourd comme héros.
Mes héroïnes favorites dans la fiction : La Maga c'est déjà lourd comme héroïne.
Mes compositeurs préférés : P. da Viola, F. de Hollanda.
Mes peintres favoris : H. Matisse et J. Miró.
Mes héros dans la vie réelle : je vous le raconterai quand je les aurai choisis.
Mes héroïnes dans l’histoire : je vous le raconterai quand je les aurai choisies.
Mes noms favoris : Teresa avec un S, même si Lætitia ne l’aime pas.
Ce que je déteste par-dessus tout : les fourmis.
Personnages historiques que je méprise le plus : les gens à droite en général.
Le fait militaire que j’admire le plus : la traversée du Rubicon. Je l’ai vu à la télé.
La réforme que j’estime le plus : la réforme morale des gens gonflants.
Le don de la nature que je voudrais avoir : le tsunami.
Comment j’aimerais mourir : je n’aime pas l’idée de mourir.
État d’esprit actuel : j’ai chaud. J’ai toujours chaud.
Fautes qui m’inspirent le plus d’indulgence : ce sont les gens qui méritent l’indulgence.
Ma devise : évitez le téléphone.

13 de maio de 2013

Eu vou correndo

Próxima estação: Largo do Machado. Estação de integração para Laranjeiras, Cosme Velho e Cristo Redentor. Após dois anos, essa frase deixará de significar que ainda faltam alguns longos minutos até eu poder dizer home sour home. Quer dizer, após dois anos ganhando mofo em ponto de ônibus e jogando dinheiro de aluguel descarga abaixo, vou dar adeus a Laranjeiras. Adeus, Laranjeiras... ou hasta luego? J'sais pas. Nas nossas andanças de sábado, a Letícia dizia que gostava de tal ou tal prédio; eu embarcava dizendo que a gente moraria aqui ou ali. Prédios do Cosme Velho: bonitos, embora eu nunca tenha visto nenhuma alma viva entrar nem sair deles.

Vou sentir falta do bolinho de bacalhau da feira e das crianças comediantes da creche. Não vou sentir falta da gentinha do prédio ao lado nem da chuva atravessando a esquadria, pingando pelo peitoril e estufando o piso. Não vou sentir falta de deixar rios de dinheiro na lavanderia e na conta da proprietária deste apartamento. Eu queria muito mandar a Berenice tomar no cu. Eu só queria que ela soubesse o quanto eu penei para lidar com os problemas desse apartamento. Mil e duzentas dilmas: se foder, cara.

No meu segundo sábado em Laranjeiras, eu disse para minha amiga Luciana que havia vindo para cá para "escrever tese". A verdade é que eu produzi muito pouco nesses dois anos. Pouco, mas o suficiente para entender que fazer doutorado (corolários: burocracia, incompetência alheia e desmandos num ambiente que deveria suar espírito libertário) é só para quem tem estômago. Ô pai, ô mãe, que criação foi essa que vocês me deram e que me fez cultivar tantas ilusões?

Esse desaforo cotidiano que chamamos de vida.

Já faz três meses que desativei minha conta no Facebook. Tirando meus amigos de verdade, aqueles para quem eu puxo cadeira no boteco, nego estava muito chato. Nego estava falando demais. Histrionismo demais, Spice Girls demais, instagramização demais, iShit demais. Trabalhando 60% do tempo em casa, eu padecia do mal de ver qualquer intervalo de dez minutos se transformar em uma ou duas horas jogadas fora naquela droga. Eu perdia um baita tempo me irritando com o ser humano. Embora esse processo de desintoxicação virtual esteja sendo menos produtivo do que o esperado –bem menos, aliás–, o fato é que eu voltei a sentir saudades dos meus amigos, desses para quem eu puxo cadeira.

Acontece que, agora, a vida pulsante não está mais nesses arredores. Eu vou correndo buscar a glória com minha Letícia, minha alegria.

Próxima estação: Afonso Pena.

24 de janeiro de 2011

Ah, assim não!

Hoje fui ao dentista. Após preencher a ficha, responder ao questionário sobre minha saúde e ouvir da secretária uma das frases mais bonitas dos últimos tempos ("sua anamnese só apontou quatro coisas"), fui exercer uma das minhas atividades preferidas: ler revistas de semanas passadas na recepção de consultórios.

Peguei a edição da revista Época de 27/12 e tomei conhecimento de um livreto de trinta páginas que tem feito sucesso na França. Depois de uma leve comparação do autor Stéphane Hessel com aquele senhor que, como cantávamos na Cinelândia na chuvosa tarde de 1 de outubro, é socialista / é coerente / Plínio Sampaio presidente, a colunista listou alguns motivos pelos quais deveríamos nos indignar no Brasil atual. Concordei com vários pontos e até me espantei com a boa-vontade da moça com as propostas de um socialista de noventa e três anos. Talvez o fato de ele ser francês alivie a responsabilidade dela.

Claro, o título do livreto de Stéphane Hessel é Indignez-vous ("Indigne-se") -- não custa nadica de nada lembrar que a sílaba tônica de indigne-se é -dig-, não o inexistente -gui-. Pois agora já não me lembro se foi Hessel ou a autora do texto que retomou Albert Camus; de qualquer forma, não achei essa lembrança nada "indiguina". Mas não é exatamente disso que quero falar.

Na noite deste último domingo vi o trailer de uma adaptação de Chapeuzinho Vermelho para o gênero "terror capitalista". O filme Red Riding Hood vai estrear nos Estados Roídos daqui a algumas semanas, e em breve se espalhará pelo mundo propagandeado como uma obra-prima do cinema de entretenimento -- meio vampirinhos-adolescentes-caucasianos style, sabe? Na minha inocência, eu pensava que ninguém no mundo seria capaz de erotizar ainda mais a protagonista da história depois daquela interpretação cansativa da defloração da pobre garotinha que sai de casa vestida de menarca. Acontece que o staff do filme parece estar disposto a fazer isso, e agora tenho tido muitas vontades de cuspir na cara de todos os sujeitos cujos nomes aparecerem nos créditos finais de Red Riding Hood.

Estou pensando em agendar uma conversa séria com o sujeito responsável por criar o título em  português para essa desgraça. Tão grande quanto minha raiva é o risco de vermos nas filas dos shoppings dezenas e dezenas de crianças prontas para devorar suas pipocas e guloseimas enquanto uma púbere branquela e sem-sal se deixa deitar num monte de feno. Bueno, fui dormir achando que teria que engolir só essa.

Pois agora há pouco ouvi uma versão de Mon oncle Célestin cantada por crianças e para crianças.

Esta canção, composta pelo Boris Vian e eternizada na voz da minha musa Magali Noël, entraria com facilidade numa lista de músicas safadas para corações românticos (sim, roubei o subtítulo do disco da Sílvia Machete). A letra narra a história de uma mocinha que se lembra das suas estripulias de infância: ela apertava as buzinas da loja de seu tio Célestin, acompanhava o encaixe das ferraduras dos cavalos da vizinhança e ia à quermesse para atirar nos patinhos de papelão e andar no trem-fantasma e no carrossel (aqui Magali canta um dos versos mais bonitos do mundo enquanto desce a escala: "et les manèges qui tournent, tournent, tournent tant").

Eis que irrompe a última estrofe -- não mais no pretérito imperfeito, mas no presente. Agora, ela atira uma pedrinha na janela do seu Pierrot e se embrenha com ele no meio do mato. Magali canta os versos abaixo com voz de Lolita (tradução minha, com o devido tom de pureza):

Là, i' m'embrasse - oh, que c'est bon!
Et i' m'enlace - ah, pas si fort!
I' me délasse, i' me concasse, i' me fricasse
Ah, pas comme ça!
J'suis sa bécasse - enlève ta main!
Et le temps passe - oh, grand sournois!
C'est mon Pierrot, j'suis sa Suzon
C'est ça qu'est bon... oh...


Ali ele me beija - oh, como é bom!
E ele me enlaça - ah, não tão forte!
Ele me relaxa, ele me esmaga, ele me esquenta
Ah, assim não!
Eu sou sua pombinha - tire a mão daí!
E o tempo passa - ah, mas que safado!
Ele é meu Pierrot, eu sou sua Suzon
Isso é muito bom... oh...

A letra termina com uma parte falada, num tom de brincadeira delicioso. A mocinha diz que tudo aquilo "é muito bom" e, como quem experimenta um cigarro, tosse e engasga. Numa prova de safadeza valendo 100 pontos, Magali Noël tiraria 102.

Acontece que durante a adaptação da letra de Vian para o público infantil, algum espertinho cortou a última estrofe. Digamos que, aos ouvidos de uma criança, o verso "I' me délasse, i' me concasse, i' me fricasse" não soaria exatamente como se fosse cantado por um tomate sendo fatiado e cozinhado por um chef de mãos delicadas...

Até aí tudo bem, prezemos pelos nossos filhos. Mas agora é uma canção sobre uma criança que gostava (apenas) de brincar com os amiguinhos do bairro. Além disso, não dá mais pra saber que se trata de uma menina, e as vozes da criançada contribuem para o clima angelical. Confesso que senti uma raiva incontrolável ao ouvir a destruição do verso "Le commis chantait... Santa Lucia!"). E o mais curioso é que aquele pretérito imperfeito perdeu toda (TODA!) a sua graça. Perde a malícia, perde a língua... tudo se perde na má ideia de Bolling.

BLIM-BLOM!!!
Lembrei-me da Terezinha do Chico Buarque!
Bolling e a turma de Red Hiding Hood deveriam ter lições com ele.

Pois agora vem o problema: de um lado, a adaptação de Chapeuzinho Vermelho para o gênero "terror capitalista" é fruto de um processo de esvaziamento linguístico, reconstrução da narrativa e supererotização -- tudo isso autorizado pela leitura psicanalítica e bancado pela indústria do espetáculo visual. Por outro lado, a adaptação de Mon oncle Célestin para o público infantil tem a sua malícia reduzida a migalhas ("réduire en miettes" é minha expressão francesa preferida) via esvaziamento linguístico, tolhimento narrativo e clientelismo barato para pais desavisados (a canção de Vian continua aí!).

Em comum, duas atitudes irresponsáveis e violentas: de um lado, o verdadeiro estupro da Chapeuzinho Vermelho, praticado em favor de uma necessidade de excitar o público que beira a humilhação de tão rasa, epidérmica e vendida. De outro, uma violência contra a letra primorosa de Vian, contra uma aula de interpretação por Magali Noël, que acerta em todas as notas e todos os floreios, e contra o par língua/linguagem.

Nessa mesma onda, juro que um dia vou me ocupar do caso dos Mamonas Assassinas: o que os autorizava a afirmar, em rede nacional, que a Maria voltou pra casa toda arregaçada e não podia nem sentar e que uma teta dela um negão arrancou e a outra que sobrou está doendo? Tudo me leva a acreditar que é o mesmo motivo que leva a censurar a MC Kátia quando ela afirma que dá o cu de cabeça para baixo.

Tudo isso em nome do lucro fácil.

______________ 
Em tempo: na mesma edição da revista Época, tem um texto do Joel Rufino com o qual concordei apesar de estar meio mal-escrito. E as quatro coisas que minha anamnese apontou foram caso de diabetes na família, dores nas articulações, alergia a poeira e nervosismo.

25 de dezembro de 2010

Il faut bouger la vie

Je me révolte donc nous sommes. 
(Albert Camus)

Meu 2010 começou na manhã de 18 de dezembro de 2009, quando descarreguei minhas sete primaveras juizforanas no velho quarto da casa em que cresci. À tarde arrumei meus livros na estante e à noite perdi meu pai. Para sempre vou trazer no tímpano esquerdo o peso das suas últimas palavras para mim, ditas poucas horas antes de ele entrar no hospital: então vem, meu filho, vem cuidar de mim. Acho que desde então existe algo a ser resolvido na minha vida e os marcos temporais, como aniversários, fins e começos de semestres letivos e réveillons, viraram janelas que tenho que abrir e fechar.

Em 2010 levei um monte de chineladas na cara, e vi amigos meus levando outras tantas. Também dei as minhas chineladas (não sou nenhum santo). Saí, voltei e saí e voltei várias vezes. Juiz de Fora continuou sendo uma presença que me assombra, para o bem e para o mal. Aceitei que o sol das tardinhas na Lagoa rivaliza lindamente com o sol das tardinhas de Valença. Vi coisas que sempre estiveram com a cabeça no meu colo saírem voando e virarem respostas, answers blowin' in the wind. Descobri um sem-começo-nem-fim de coisas, de lugares e de sorrisos que eu quero. Por outro lado, descobri umas quatorze coisas que não quero. Descobri uma esquina e um ponto de ônibus em que posso me sentar e passar horas sem ser visto; aliás, decidi que meu livro, se algum dia eu o escrever, vai se chamar Bus Stop Blues. E não, a minha família ainda não conseguiu resolver seus pepinos. Mas minhas irmãs, minha mãe, meu sobrinho e eu estamos no caminho. E cada Reis de Faria que vier vai virar uma folha no galho que trago desenhado no braço direito.

Neste ano estive no meio de várias situações em que as teimosias, as fraquezas e, mais do que tudo, as vontades (essas putas!) se encararam, se bateram e deram sarrafadas na cara umas das outras -- o que não foi propriamente uma novidade, mas acontece que a vida é um parêntese aberto e chega um ponto em que é preciso sacudi-la. Em 2010 resolvi sacudir minha vida umas trinta vezes... Daqui a poucas noites o ano novo vai se descortinar e me desculpe, babe, olhando por esta janela da Calle Arenales, de onde vejo o começo de Kadıköy, a Butte Montmartre e uma faixa de pedestres da Tijuca, não posso deixar de ser teimoso: vou continuar correndo, eu vou correndo buscar a glória.

O tempo é um bicho que anda e anda e nesse andar ele vai marcando o chão. Essas marcas se cruzam o tempo todo; mas nós não somos essa marca, nós somos as patas do bicho, as patas que deixam[os] marcas no chão e pisões nas patas dos outros - l'enfer c'est les autres, faut pas oublier! Pois hoje acordei com uma pergunta na cabeça, a última frase do primeiro romance de Mario Benedetti, lançado em 1953. A lucidez sempre foi a mais nobre característica de Benedetti, meu grande amigo uruguayo que virou uma estrela no céu de Rudá em 17 de maio de 2009. A pergunta que ele lançou diz assim: ¿quién de nosotros juzga a quién?

Fechar um ano e começar o outro -- ou melhor, fechar uma janela e abrir outra com uma pergunta, e não com uma lista imperativa, me parece sintoma de algo bom.

2 de abril de 2010

Desempacotando minha xeroxteca

Há quatro meses, por causa da mudança de Juiz de Fora, comecei a encaixotar a minha biblioteca. Mas não é exatamente dela que vou falar; deixo isso para outro momento, talvez quando tropeçar de novo naquele texto tão legalzinho do Walter Benjamin que se chama - veja só como sou criativo - "Desempacotando minha biblioteca". Hoje preciso falar da minha xeroxteca, aquele monte de papel que muitas vezes ignora a legalidade e faz longa companhia a tantos estudantes universitários.

Ainda me pergunto onde é que eu meti a cabeça quando inventei de organizar minha xeroxteca em pastas de papel. Elas rasgam com facilidade, ainda mais quando são compradas em quantidade insuficiente: a culpa sempre é dos cálculos mal feitos, pois em termos de tralha a gente sempre tem mais do que imagina ter. Digo isso com alguma propriedade, pois desde que me entendo como gente convivo com um grande acúmulo de coisas de utilidade duvidosa - isso quando as coisas não são realmente inúteis. E já que comecei falando da minha mudança, não custa nada lembrar que naquele processo de empacotamento, poluí o vasto mundo com quatro sacos de lixo, cheios de entulho.

Tenho a impressão de que, sob condições normais (aquelas em que o dono da tralha é um sujeito minimamente comprometido com sua formação intelectual), a xeroxteca nasce como um depósito menor de saber. Os livros conseguem conservar bastante do seu ar de limpeza, sem contar o carnaval das suas lombadas coloridas; já os textos xerocados, depois de manuseados pelo calor da sapiência (não se esqueça de que falamos de estudantes responsáveis) ficam encardidos, amassados, completamente rendidos pela pressa das anotações. Em sua informalidade monocromática, o texto xerocado raramente é protegido pelo fetiche.

Minha última experiência com um texto xerocado me mostrou uma coisa bastante engraçadinha. Em um texto de mais cem páginas (ou cinquenta e tantas folhas), encontrei intervalos de cinco, seis, até dez páginas sem um grifozinho sequer. De repente, com um simpes virar de folha, aparecia uma selva de rabiscos, coisas que eu não conseguia mais entender, interrogações, exclamações, críticas sem nenhum fundamento ao Jacques Derrida, links para outros textos que eu digeria na mesma época. Depois de passar or olhos pela terceira vez no Mal de Arquivo, três anos depois da primeira, consegui perceber com muito menos dificuldade o que a tradutora fez com o texto. Não por causa da familiaridade com o próprio texto, muito menos por causa de um grau menor de antipatia com o Derrida, mas justamente pelas minhas anotações, muitas das quais acabei tachando. Nessa falta de pudor ao rabiscar o xerox, a maturidade da leitura foi realmente visível.

O texto xerocado tem essa preciosa vantagem em relação ao livro. Rabiscar livros é algo que muitos, eu inclusive, fazemos com cuidado. Quase precisamos vestir luvas cirúrgicas para grifar um livro, mesmo quando o rabisco é fruto daquele "calor da sapiência" de que falávamos. Há sempre uma pausa entre ler, num livro, um trecho como "Articular historicamente o passado não significa conhecê-lo 'como ele de fato foi'. Significa apropriar-se de uma reminiscência, tal como ela relampeja no momento de um perigo" e contornar, na margem estreita, um ponto de exclamação. E preenchê-lo. E torná-lo uma marca. Verbo to carve, em inglês. Essa pausa sempre dura uma eternidade, já que a tinta - ou o grafite, para os que preferimos escrever a lápis - toma fôlego para marcar a sua própria eternidade.

Nestes quatro meses, três dos quais pretensamente dedicados ao repouso intelectual depois de uma pesquisa de mestrado extremamente desgastante, fui desempacotando minha xeroxteca sem nenhuma responsabilidade. Tanto é que apenas na semana passada me dei conta de que não havia aberto os três pacotes que eu considerava como "os mais importantes". Já a biblioteca... desde o Natal ela está confortavelmente acondicionada na estante que troquei com a minha irmã, onde há espaço até para livros que não têm muita participação na minha vida, como uma biografia de Indira Gandhi, O francês sem mestre ou Introdução aos estudos culturais.

Metade da xeroxteca, que foi devidamente dividida segundo este mesmo critério de utilidade, frequenta as horríveis pastas de plástico amarelo-ovo que todo aluno de Humanas da UFJF conhece como a sola de seu pé - e que não rasgam tão facilmente. A outra metade ainda repousa nas cretinas pastas de papel, ignoradas num quarto da casa da frente - apresso-me a avisar que a casa da frente é um espaço do terreno que os Reis de Faria cultivaram para guardar tudo que precisa sair do alcance dos olhos. Se algo não pode nem deve entulhar a sala e os quartos, ele é entulhado em algum lugar da casa da frente. É quase um gueto.

À medida que ia abrindo os pacotes da mudança e separando a papelada, revi e relembrei os desenhos que eu fazia quando as aulas ficavam improdutivas, ou quando eu dava uma desligada em casa. Não que eu desenhe bem, mas minha mão esquerda também tinha os seus momentos de competência. Alguns desenhos são até bastante originais, como o intitulado L'homme frappe à la porte, que mostra uma figura humana com o punho levemente erguido, batendo na parede de um corredor comprido. Outro desenho, e esse é um dos mais legais, mostra um homem franzino, fumando com um pé encostado na parede e com um olhar meio desconfiado, por baixo da aba do chapéu. Com uma voz grave, ele diz uma frase que andava muito em voga nas nossas aulas de francês: bouge de là...

Enquanto alguém rabisca ao léu as margens de um texto xerocado, o texto vira um detalhe ignorado. Desenhar nas margens de um livro? Ato de coragem para poucos. Ao ser ressaltado o espaço em branco em volta daquilo que seria a razão de ser da fotocópia, é o próprio texto xerocado, visto enquanto coisa orgânica, quem guarda em si um espaço de liberdade que é, afinal, um espaço de resistência - não nos esqueçamos de que "Toda canção de liberdade vem do cárcere".

Juntando todos esses parágrafos, não posso deixar de lembrar um dos meus trechos favoritos, de um dos livros que mais me atiçaram a consciência - Muertos Incómodos, do Subcomandante Marcos e de Ignacio Taibo II, que li na má tradução brasileira - e que cito no original:
Onde quiera anduve y onde quiera encontré gente como nosotros los zapatistas, que sea gente que está jodida, que sea gente que es luchona, que sea gente que no se deja.

2 de janeiro de 2010

Para onde segue essa tal vida que segue

A gente morava ali em cima, onde está aquele rapazote. Aqui ficava uma coisa que eu nunca soube bem o que era, acho que uma era agência de viagens, qualquer coisa do tipo. Tinha um senhorzinho e o filho dele, o senhorzinho se chamava Alceu. Aqui eu não me lembro bem, parece que vendia ventiladores, qualquer coisa do tipo também. Já ali era uma oficina de bicicleta muito fuleira, que hoje funciona na subida da Getúlio Vargas, antes de descer lá para casa.

Ali do outro lado, atrás da Kombi, era a loja do Délio. Vendia de tudo no Délio, nem sei dizer o que tinha. E aqui atrás não tinha esse negócio, era um terreno onde meu pai parava o carro. A imagem mais clara do Délio é daqueles carrinhos de Fórmula 1 de plástico, sempre aos pares, um verde e amarelo e o outro vermelho e branco: uma Benetton e a McLaren do Ayrton Senna, só podia ser. Na verdade nem sei se tinha disso no Délio, mas sei que tinha um monte de coisas que eu não sei como se chamam, coisas de costura. E por aí vai.

Pois bem, aqui era um açougue, depois tinha um barbeiro com uma puta cara de barbeiro, um senhorzinho desses que a gente chama com gosto de Seu Fulano. Depois dessa escada tinha uma doceria, uma quitanda nesse espaço apertado e aqui era o bar dos Mineiros - ou do Mineiro, no singular, que seja, já faz quase vinte anos -, quer ver? Taí o bar, com a mesma cara de quase vinte anos atrás.

A gente se mudou dali quando eu tinha seis, quase sete.

Tudo isso, memórias que brotaram outro dia mais cedo quando eu seguia de bicicleta para a casa do meu avô, tudo isso serviu apenas para preencher alguma parte do buraco que tem habitado em mim nos últimos quinze dias, desde que voltei para minha terra natal. Não falo de buracos para baixo, como aqueles que meu cachorro anda cavando, mas de buracos de parede. E não digo "quinze dias" para arredondar duas semanas, digo quinze porque foi há quinze dias mesmo que a coisa toda começou a desandar. E digo desandar é de desandar mesmo, porque a tendência já era a desandagem quando, às dez e tantas da manhã do dia dezoito de dezembro do meu terrível dois mil e nove, deixei Juiz de Fora rumo a Valença.

E não é que o ano enfim virou?

Falando em buraco na parede, preciso fazer dois deles para penduricar La danse de Matisse e a imagem catamarqueña de uma avestruz que ganhei já faz bastante tempo e que nunca tive a oportunidade de penduricar nas minhas paredes juizforanas.

Ter eu até tive, o problema foi nunca ter lembrado.

Têm sido assim meus primeiros dias valencianos: tão sozinhos, meio sem sal, meio sem saber para que lado vão. Se é que estão indo para algum lugar.